Ano Novo e a tal Vida Nova!

Quinta-feira, Dezembro 31st, 2009 | Por nada em especial | Comente!

Com a chegada do último dia do ano e o avizinhar de um novo ano, ouve-se com frequência a expressão “Ano Novo, Vida Nova”. Confesso que me cansa imenso esta coisa… É como se me colocassem um peso enorme em cima, uma responsabilidade que se acrescenta a todas as que já temos! Por outras palavras: “Ano Novo, façam favor de ser felizes, nem que seja à força! Vejam lá se resolvem os vossos problemas todos de uma vez e se concretizam os sonhos todos também! Recomecem tudo de novo, faz favor!!!”
Isto causa-me enfado, confesso. Que canseira. (Re)começar tudo outra vez… tudo de novo, novamente. Fica-se naquela tensão tipo “agora é que vai ser! agora não posso fazer asneira! agora vai ser um espectáculo! se meto o pé na argola, lixo-me!”
Sinceramente, da minha parte, fico à espera que passem aqueles primeiros dias de Janeiro e que regressemos a uma relativa normalidade.
Para mim, todos os dias são válidos para recomeçar, para tomar decisões, para ser feliz, para… no fundo, para o que se quiser. Todos os dias e todos os momentos, até. Assim haja vontade, coragem, força, energia…
Datas destas incomodam-me um pouco, reconheço. Não sei muito bem porquê… e acho que nem me interessa!
Enfim… não sei até que ponto consigo mudar para melhor (ou sei até que ponto não consigo mudar!), mas a parte de desejar felicidades a toda a gente não me mete espécie.
Por isso, FELIZ ANO NOVO e muita vontade de VIVER intensamente cada dia, um de cada vez!

“Diário Inédito”, Vergílio Ferreira

Segunda-feira, Novembro 23rd, 2009 | Leituras | Comente!

 

Terminei já no mês passado a leitura do “Diário Inédito” de Vergílio Ferreira. Confirmou-se ainda mais como um dos meus autores preferidos. E sinto-me quase impossibilitada de o descrever, porque vou estragar ou porque será insuficiente ou porque será nada. O que mais me cativa nele é a Verdade com que escreve e a Verdade do que escreve; a fidelidade para consigo próprio; a maravilhosa sensibilidade que transborda da escrita dele. Tem um olhar capaz de ver beleza e de tornar belo, sendo também um olhar fino, inteligente, sagaz, analítico. E verdadeiro. Era este olhar que eu também queria, esta capacidade de ser fiel a si próprio, à sua realidade, ao mundo que vive. No fundo, conseguir produzir beleza, arte. Tornar palavra o que se sente, o que se pensa, o que se olha, tornar palavra a verdade ou a mentira do que se vive.

 

 

A propósito de Etty…

Segunda-feira, Novembro 23rd, 2009 | Leituras | Comente!

O “Diário 1941-1943″, de Etty Hillesum, para mim, é um dos melhores livros que já li! Um dos meus livros de eleição, mas sem qualquer dúvida!

Etty Hillesum, uma judia holandesa (?), fala do amor e da vida e do mundo de um modo tão libertador, tão humano, que nos desarma. Em plena II Guerra Mundial, no meio das perseguições dos nazis e de um cerco que se apertava cada vez mais, não há no seu texto um pingo de auto-comiseração, nada de pena de si própria. Antes, um viver o presente de cada dia como um dom, uma oferta que se recebe e ser inifinitamente grata por esse dia. Etty consegue ver beleza no meio da maior fealdade, esperança no meio da desolação; sentir-se em casa olhando para o céu… É uma verdadeira lição de esperança e de vontade de agarrar a vida, no meio da dor e do medo que alastrava pelo mundo.

No espaço de dois anos, nota-se nela uma mudança incrível. Progressivamente, vai descobrindo o que é ser humano, o que é amar, o que é viver, o que é ser livre. E depois o confronto entre o bem e o mal e o medo e uma certa ténue distância entre eles. Simplesmente soberbo!

Aprendi imenso com este livro, e vale sempre a pena revisitá-lo de vez em quando. Quase não há página que não tenha alguma frase que nos deslumbre.

A propósito do comentário que escrevi sobre o diário de Etty Hillesum, gostava de transcrever algumas passagens que me tocaram mais. Espero que gostem.

“Ele acaricia a pessoa, mas não a mulher. A garra estende-se à pessoa, mas não à mulher. E a mulher quer ser acariciada como mulher e não como pessoa. Pelo menos é o que acontece comigo de vez em quando.” Comigo também, não tenho é coragem para o dizer.

“Agora mesmo a sensação que tenho é de que gostaria de me aninhar nos seus braços e ser só uma mulher, ou menos do que isso ainda, somente um pedaço de carne acarinhado.” Quantas vezes… E agora leiam bem isto. “É exactamente por isso que eu sobrevalorizo a sensualidade: porque quero que o pouco de calor humano que duas pessoas procuram de vez em quando seja elevado bem acima do seu significado comum expresso através de fórmulas poderosas, do tipo «Amo-te para todo o sempre.» Não há outra coisa a fazer senão deixar as coisas ser como elas são, e não querer elevá-las a níveis impossíveis, e quando deixamos que elas sejam o que realmente são, é então que elas revelam o seu valor intrínseco. Quando se toma como ponto de partida algo absoluto, que realmente não existe e uma pessoa não deseja, não se consegue viver a vida nas suas proporções reais.” No mínimo…, forte, não?

E agora, uma das minhas preferidas, ou talvez a preferida:
“Ah, deixar completamente livre alguém que se ama, deixá-lo viver a sua vida completamente à vontade, essa é a coisa mais difícil que existe.” Sem dúvida! E como isto é verdade! Deixar o outro ser livre. Livre, até, de se ir embora.

“Porém, no escuro, consegui esconder a minha cara entre os ombros nus dele, e saboreei as minhas lágrimas sozinha.”

“E este último ano e meio poderia compensar uma vida inteira de sofrimento e ruína. Fundiu-se comigo, eu própria sou este ano e meio, e ele forneceu-me uma reserva com a qual posso viver uma vida inteira sem passar muitas necessidades. (…) Este último ano e meio, meu Deus! E os últimos dois meses, que em si já foram uma vida inteira!
E não tive eu horas em que disse: «Esta hora só por si foi uma vida inteira e se morrer daqui a pouco, então esta hora valeu por uma vida toda.»? E eu tive frequentemente esse tipo de horas.”

“Uma pessoa deve ser a sua própria pátria.”

“Uma pessoa deve viver consigo própria como se vivesse com uma multidão inteira.”

“Ser fiel a tudo o que uma pessoa iniciou num momento espontâneo, demasiado espontâneo por vezes.
Ser fiel a cada sentimento, cada pensamento que começou a germinar.
Fiel no sentido mais lato da palavra.
Fiel a si mesmo, a Deus, fiel aos seus próprios melhores momentos.
E onde uma pessoa está, ser totalmente, cem por cento ser.”

De regresso às danças!!

Domingo, Novembro 22nd, 2009 | Por nada em especial | Comente!

Em Setembro, voltei a dançar. Há mais de um ano já que não me permitia este prazer. Espero, desta vez, poder ficar pelas danças enquanto isso me fizer bem ao corpo e ao espírito.

Dançar é uma verdadeira delícia. Afasta da cabeça as preocupações, desenvolve o equilíbrio, a flexibilidade, o ritmo… Sentir a música na pele, dançar com alguém e deixar que nos leve através dos passos, através do ritmo é uma sensação incrível.

Agora que penso nisso, apercebo-me até que eu sou mais eu quando danço. Sinto-me mais preenchida, mais confiante até. Só tenho pena de não poder praticar mais, de não ter um espaço onde revelar um pouco este meu lado. Nestes quase 3 meses que estou na Alunos de Apolo - Braga, aprendi quase tanto como no ano e meio que passei nas danças noutra escola.

E para terminar, fica só a nota de prazer puro quando se dança com uma pessoa que, além de ser bom dançarino, gosta de dançar e gosta de dançar connosco. Quando isto acontece, nem cansaço se sente, apenas o desejo de continuar.

“A Casa do Mirante” - a primeira página

Sábado, Setembro 12th, 2009 | Escritos e outras palavras afins | Comente!

“Erguia-se em agonia no alto da colina e avistava-se da estrada. A casa era velha, muito velha, e tinha um mirante rendilhado de gaivotas. A decadência parecia revesti-la de maior autoridade sobre o observador. Arruinada de silvas, interpelava o pobre peregrino transeunte. Orgulhosamente gasta, lamento estéril de um passado longe. Encontram-se ainda os contornos invisíveis de alguém? Ouvem-se ainda os passos apressados no soalho? Pressente-se o cheiro das compotas? E o vento a entrar pela janela aberta? Era o último eco, o último grito lançado pela distância já morta. Matilde ouviu-a. O mundo fala connosco. As coisas também têm vida. Nem que seja apenas o resquício de uma casa moribunda.
Matilde parou o carro junto ao muro que amparava o portão. Ignorava a quem pertencia aquela casa, mas não resistiu a empurrar o portão entorpecido e a aventurar-se na pequena propriedade.
A casa agonizava. Parte da escadaria que descia até ao jardim tinha caído. Silvas nas janelas do rés-do-chão. O portão verde fora dos gonzos. A tinta amarela começara a cair há muito, desfazendo-se em pedaços. Só a glicínia permanecia, apesar da decadência geral, firme e viçosa. Mas os canteiros não, assolados por ervas daninhas, crescendo desordenadamente, invadindo, sufocando. Das outras árvores, que rodeavam a casa, pouco restava. A maior parte secara. O grande plátano, ao fundo do jardim, tinha-se partido em dois, vítima de um raio durante uma trovoada violenta.
A casa, o jardim, o tanque, agora parado de águas verdes, eram uma visão de um passado que já fora belo, quase perfeito, quase harmonioso… Desse outrora, pouco sobrara, além das paredes de uma casa que tentava resistir e lembrar, deixando na mente de quem a observava um cheiro a saudade, ainda que uma saudade de passado menos desconhecido que inventado.
O mirante lá estava, plantado junto do velho plátano, a um canto do terreno, subindo mais alto do que a casa, espreitando sempre um pôr-do-sol mais raiado, um amanhecer mais feliz. Quem se teria lembrado de o construir ali? Era apenas uma torre, com uma porta de madeira no fundo.

Foge a madrugada desvairada de gaivotas. Madrugada igual às outras manhãs, sentidas de frio e de água corrente. Rio escarpado entre margens ásperas, cinzentas e verdes. Rio que escorre pela terra, pelo fundo da terra que desaparece cá em cima. O corpo escorrega de assombro pela natureza ácida, e os olhos deixam-se cair, deslumbrados pela pouca mão de gente em tanta natureza e pelo horizonte insaciável, abundante de céu para sempre. Céu divino, transparente da morada celeste. É a aurora.

(absolutamente) “Irreversível”

Sábado, Setembro 12th, 2009 | Cinema em casa | Comente!

“Porque o tempo destrói tudo.
Porque alguns actos são irreparáveis.
Porque o homem é um animal.
Porque o desejo de vingança é um sentimento natural.
Porque a perda de um amor nos destrói como um relâmpago.
Porque o amor comanda a vida.
Porque toda a história se descreve com sémen e sangue.
Porque as premonições não alteram o percurso das coisas.
Porque o tempo revela tudo.
O pior e o melhor.”

“Irreversível” não era um título que fizesse parte da minha lista de filmes a ver ou já vistos. Não o conhecia até que me falaram dele. Apresentaram-mo como um filme duro, muito violento e completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto. Não resisti à curiosidade e aí vim eu com o filme na carteira para ver no fim-de-semana que se aproximava.

Não saí defraudada! Correspondia a tudo o que me tinham dito. Bem, só não vou dizer que é diferente de todos os filmes que já vi. Sim, a história é diferente, mas o “processo de narrativa” (se me permitem a expressão) usado já me era familiar. Reconheço, no entanto, que o modo como é filmado, até as próprias cores e a música fazem diferença. Sobretudo de início, estes três aspectos contribuem para uma ideia de alucinação desesperada.
A narrativa encontra-se em constante flashback, recuando episódio a episódio, respondendo mais ou menos às perguntas que nos vamos colocando: quem? porquê? como? quando?
Algumas questões ficam sem resposta. Há porquês que ficam sem resposta. E, de facto, se pensarmos bem, há tantas, tantas perguntas a que não conseguimos responder! Há tantos “porquês” que ficam suspensos à nossa volta sem encontrar solução.
O argumento de “Irreversível” até pode ser mais ou menos comum: uma história de amor (onde a moral pode colocar reticências), um acto irreparável e o desejo de vingança. Ingredientes mais ou menos comuns (os topicae sempre foram mais ou menos os mesmos ao longo dos tempos), o modo de os tratar e de os desenvolver e revelar ao espectador é que difere! Diria até que difere cruelmente!
Confesso que o que mais me impressionou foi uma cena de violação. Não tanto pelo que foi exibido (objectivamente falando, o que foi mostrado não é nada comparado com a violência que transparece ali), mas pelo modo como foi filmado (câmara pousada no chão ao nível da cabeça da personagem feminina) e, mais que tudo (!), pelo tempo que durou! Sim, o tempo! É como se não fosse acabar nunca. E a linguagem, as cores, as expressões faciais, os movimentos do corpo, tudo se conjuga com o tempo. Filmado em tempo real. Há tantos filmes com cenas de violações, mais ou menos longas, mais ou menos sugeridas, com mais ou menos crueldade… “Irreversível” leva-nos ao limite, aos requintes do hediondo… e do incompreensível.
Depois, há a perda, o confronto interior, o desejo de vingança, o lado mais animalesco do ser humano… e o lado mais incrédulo… Enfim, no fundo, a vida. A vida revelada no seu lado mais duro de um túnel “vermelho de alto a baixo”; e também na beleza e no calor de dois corpos perfeitos abraçados.

Por tudo isto e, de modo especial, pelos motivos que enunciei em cima (e que copiei da capa do DVD), vale a pena ver o filme.
No entanto, fica o aviso, é preciso ter mais de 18 anos e muita coragem! Acima de tudo, depois de visto, é “irreversível”…

“Deixa que a vida aconteça!” (Rilke)

Sábado, Setembro 12th, 2009 | Leituras | Comente!

Terminei há já algum tempo a leitura de “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke. Um livrinho precioso de apenas 89 páginas que se lê em pouco tempo, embora o seu conteúdo devesse permanecer uma vida inteira.
Rilke foi um escritor alemão considerado um dos maiores poetas do século XX. As cartas foram dirigidas a Franz Kappus. Este jovem poeta escreveu a Rilke, procurando conselho e uma apreciação aos seus próprios poemas. Como admirador de Rilke e reconhecendo o valor e importância da sua opinião, enviou-lhe alguns poemas para que eles os avaliasse ou criticasse. A resposta de Rilke, logo na primeira carta, é desconcertante e tremendamente libertadora. Passo a transcrever uma parte:

“Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se a resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas mais indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto.”
“A boa obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nesta fonte que encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? (…) Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.”

Creio que estas palavras são válidas não só para a escrita, como para qualquer tipo de arte. Mas eu iria ainda mais longe: acredito que são válidas para a vida e para as inúmeras decisões que temos de tomar: “(…) nas coisas mais profundas e importantes, estamos indizivelmente sós, e para que um homem possa aconselhar ou sequer ajudar um outro, muitas coisas têm de acontecer e ser levadas a bom porto, uma constelação inteira terá de favorecer esta intenção.”

Rilke fala da vida, da solidão, do tempo e do seu contínuo devir, do processo criador e criativo com uma sabedoria, uma humildade, e ao mesmo tempo, uma leveza e uma simplicidade que me fizeram pensar. Senti-me interpelada, como se as cartas fossem dirigidas a mim.

“Esta vida não pode ser medida no tempo, o tempo não se divide em anos, e dez anos não são nada. Ser artista é não calcular e não contar, é amadurecer como a árvore, que não comanda a seiva e que enfrenta tranquila as tempestades da Primavera sem recear que o Verão não chegue. O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente, para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados, silenciosa e imensa, a eternidade. Todos os dias aprendo uma lição, aprendo-a pelo sofrimento que aceito com gratidão: a paciência é tudo!”

E é tão difícil ser paciente. É tão difícil ser paciente hoje. Ou ainda, é tão difícil eu ser paciente, não só com a vida e os acontecimentos exteriores, mas comigo mesma até. No meio de uma certa tristeza que surgiu quase sem querer por causa de uma secreta ansiedade, deparo-me com esta frase: “(…) e lentamente aprendemos a reconhecer as poucas coisas onde o eterno se demora e cuja solidão podemos partilhar em silêncio e amar.”

Para mim, esta frase é lindíssima, mais pelo que compreendo dela, pelo que com ela me identifico e pelo que me recorda de momentos já vividos, do que pelo seu aspecto formal. Cada pessoa é um mundo a explorar, carrega dentro de si um universo infinito de vivências, pensamentos, traumas, emoções, histórias, lágrimas e sorrisos.

“Pense no mundo que traz em si, caro Senhor, e dê a este pensamento o nome que quiser (…). O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, trabalhe nisso de algum modo e não perca muito tempo nem alento a tentar esclarecer a sua atitude perante os homens.”

E há espaço também para o amor e para amar. E é tão assim. Amar é algo tão solitário… “O amor é difícil”, diz Rilke. E como! E de que maneira! Uma contínua prova de fogo.

“Também amar é bom: porque o amor é difícil. O amor de uma pessoa por outra: é talvez essa a maior dificuldade que conhecemos, o extremo, a última prova e teste, o trabalho que todos os outros trabalhos preparam. (…) Mas o tempo de aprendizagem é sempre longo e fechado, e por isso para quem ama o amor é solidão por muito tempo, pela vida fora, é um isolamento que ascende e se aprofunda. Amar não tem de início nada que ver com abrir-se, entregar-se e unir-se a uma outra pessoa (…), é antes uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro, é um imperativo grande e imodesto que faz dele um eleito e o chama para a distância.”

Confesso que ainda não conheço Rilke como poeta, mas as cartas que escreve a Franz Kappus são de uma beleza e de uma sabedoria avassaladoras. A vontade que tenho é de transcrever o livro na sua totalidade, porque é arrebatador. A mensagem é difícil, dura, dolorosa até. A mesma mensagem poderá levar uma vida inteira a pôr em prática e mesmo assim a taxa de insucesso pode ser alta. Mas não vale a pena? Não é tremendamente libertador? Não alivia no meio do peso que acarreta?
“E se falarmos outra vez da solidão, torna-se cada vez mais claro que ela no fundo não é nada que possamos escolher ou abandonar. Nós somos solitários. Podemos iludir-nos a esse respeito e agir como se assim não fosse. É tudo. Mas perceber que somo solitários é de longe melhor, perceber que é esse na verdade o nosso ponto de partida. É certo que nesse momento sentimos uma vertigem; pois todos os pontos em que os nossos olhos costumavam pousar desaparecem, já nada está perto, e tudo o que está longe está infinitamente longe. (…) Temos de aceitar a nossa existência, por mais longe que ela chegue; tudo nela tem de ser possível, mesmo o inaudito. É no fundo esta a única forma de coragem que nos é exigida: que encaremos ousadamente o mais estranho, o mais fabuloso, o mais inexplicável.”

E para terminar, aqui fica não um conselho, mas uma atitude, um modo de estar na vida, que aparece na última carta, a nona:

“E, de resto, deixe que a vida aconteça. Acredite no que lhe digo: a vida tem sempre razão.”

“Histórias de amor”, José Cardoso Pires

Sábado, Setembro 12th, 2009 | Leituras | Comente!

Encontrei na Fnac há uns tempos atrás um livro de contos de José Cardoso Pires, escrito nos anos 50, quando ele tinha 27 anos. Chama-se “Histórias de amor”, mas não são historinhas de amor lacrimejantes ou sentimentalóides. Na verdade, são até um pouco duras e dolorosas. Por isso, nada de ficar à espera de finais felizes!
No entanto, são contos que nos levam para dentro das cenas, para dentro daquelas pessoas/personagens. E pode ser assustador, quando ao lermos uma frase ou imaginarmos uma cena, percebermos que já sentimos algo assim, ou já vivemos algo parecido, ou já pensámos algo do género. E caímos na conta do realismo e da realidade ali presentes, bem como da beleza de algumas passagens.
Houve duas coisas que me fizeram comprá-lo:
1. foi retirado do mercado pela censura
2. esta edição contém as as partes que foram cortadas pelo “lápis azul”. Às vezes, apenas uma palavra ou expressão, como por exemplo: “dor de corno” ou “pagou o quarto”; outras vezes páginas inteiras!
Este cheirinho a probido convenceu-me! Tinha de saber o que é que a censura não queria que as pessoas lessem, o que é que era… proibido…

Quando terminei a leitura, completamente deslumbrada pela beleza e realidade (às vezes brutal e triste) das histórias, dei comigo a pensar que… se eu vivesse nos anos 40/50 e conseguisse publicar o meu livro… ele também seria retirado do mercado, não só pela linguagem usada (e não me refiro a calão, mas a tudo o que signifique sexualidade e intimidade), mas também pelo próprio conteúdo… Dá que pensar…

Para terminar, não resisto a colocar aqui algumas passagens. Como é óbvio, não as vou comentar nem nada que se pareça: a beleza é para ser apreciada e sentida. E não creio que seja possível explicá-la. Espero que gostem!

“Voltou-se lentamente. Lá estava ela, ainda no leito, com uma perna abandonada entre os lençóis.”

“- Inda não tens apetite?
- E tu, tens?
- Uma fome…
- Então também eu tenho, Paulo.
- Ora essa?
- Tenho, pois. Hoje sinto tudo o que tu sentes, Paulo.”

“Nalgumas até, nas magníficas rotas de asfalto que se espraiam pelas colinas que ficam para os lados do Tejo e do oceano, há coutadas, pequenos miradouros solitários de paisagens verdadeiramente turísticas e de propaganda onde se podem fazer surtidas ao amor em horas clandestinas.”

“Ouvem então o cantar longínquo dum galo e o correr da aragem da noite sobre os fios telefónicos que passam pela janela ao rés da fachada.” (…)
- Às vezes, tenho a impressão de que não sei nada de ti nem tu de mim. (…)
- Oh, não é preciso. Basta que a gente conheça duas ou três coisas um do outro. (…) Gosto dos livros que tu me emprestas e das fitas de que tu gostas. E tudo isso por outras razões que eu já conhecia há muito. Coisas que sabia mesmo antes de te conhecer. (…) Gosto sem ser preciso esforçar-me, compreendes? (…)
Debruça-se mais, os contornos esfumaçam-se muito, mas só o bastante para que apareça ao homem completamente mergulhada no fundo antigo e irreal, colorida no esmalte dos séculos. E, fica de marfim, púrpura e ouro velho, à luz verde dos plátanos. (…)
- Amor eterno, pensa de alto.
E continua a repetir com voz acre «amor eterno, amor eterno», enquanto na calçada o motor arranca e ela parte entre os dois homens numa alvorada de galos.”

num folhear de páginas

Segunda-feira, Setembro 7th, 2009 | Por nada em especial | Comente!

Ontem, estava na Fnac e peguei num livro para lhe dar uma vista de olhos. Numa das páginas, o autor contava um conselho dado por um escritor aos jovens aspirantes a essa tão excelsa actividade criativa. Dizia a tal pessoa que os jovens não deviam escrever sobre acontecimentos recentes, devendo deixar passar pelo menos 20 anos (como se tivéssemos tempo para isso…) antes de se debruçarem sobre o que quer que os tenha marcado. Afinal, dizia, só ao fim de muito tempo (daí os tais 20 anos…) podemos saber a real importância de um assunto que nos ocupou.

Para minha tranquilidade, o autor do livro, João Bénard da Costa, discordava deste conselho. Imaginem a minha preocupação ao realizar que tinha de parar tudo o que tenho em mãos para só lhe voltar a pegar aos 51… e isto se, do alto da minha maturidade, entendesse justificar-se voltar pensar no que me fez feliz ou infeliz aos 31… mais ainda, se me lembrasse!

Até entendo aquilo que a pessoa quererá dizer na sua partilha de sabedoria com os mais novos. Deixar passar algum tempo significa ganhar alguma distância crítica, razoabilidade, deixar amadurecer os sentimentos. Não creio, porém, que sejam necessários 20 anos… caso contrário, como aliás dizia o próprio Bénard da Costa, vou escrever sobre o quê? Fico limitada à minha infância?

Além disso, confesso que acredito muito no poder das palavras no momento forte da emoção. É um modo de exteriorizar, de exorcizar os fantasmas que nos magoam e nos oprimem. Pode ter demasiada sensibilidade e pouca técnica para chegar a ser arte. Mas certamente haverá verdade e coerência com aquilo que se é. E poderá, pelo menos, ser um ponto de partida, uma base de trabalho a explorar, a desenvolver.

Gosto de escrever sobre o hoje, sobre ontens recentes. Se daqui a um ano mudar de opinião, muito bem, terei um termo de comparação e poderei avaliar o que mudou, talvez até compreender-me melhor. E isso será já uma vitória.

“O mundo é tudo o que acontece” (Pedro Paixão)

Sexta-feira, Setembro 4th, 2009 | Excertos | Comente!

“Não conhecer uma pessoa e começar a conhecê-la é algo que fazemos ligeiramente, sem pensar no passo que damos, nas consequências, nos insuspeitos perigos.” (Pedro Paixão, in “O mundo é tudo o que acontece”)

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